sábado, 31 de agosto de 2013

Síria: Por que o ocidente encolheu-se?

Barack Obama

Obama encolheu-se. Quando disse na 4ª-feira que “não tomei uma decisão” e falou de “resposta limitada” à crise Síria, não agia nem falava como os presidentes dos EUA sempre agiram e falaram desde a primeira guerra contra o Iraque, em 1991. (Nem Clinton, nem os Bushs, pai e filho, jamais falaram de “limitações”, em circunstâncias semelhantes).

Os parceiros menores de Obama na Grã-Bretanha e França rapidamente passaram a copiar o chefe, imitando-o nas vacilações, exatamente como, na véspera, haviam-no imitado na “firmeza”. O Primeiro-Ministro britânico David Cameron também alterou repentinamente o tom de voz, ao repetir pela infinitésima vez a mesma mentira sobre a Grã-Bretanha ‘não tomar partido’ no conflito sírio.

David Cameron por DonkeyHotey

A verdade, sobre tomar lados, ou, de fato, tomar um lado, é que Grã-Bretanha, EUA e outros países ocidentais já escolheram lado há tempos, em 2011 ou possivelmente antes.

Pior que isso: Cameron encontrou oposição decidida aos seus planos de intervenção, em 285 deputados do Parlamento Britânico – momento excepcional para um parlamento que sequer foi consultado sobre o ataque à Iugoslávia em 1999 ou sobre a ocupação do Iraque em 2003.

O presidente da França, François Hollande, que havia dito há apenas um dia que a França estava pronta para “castigar os que matam a gás gente inocente”, também repentinamente toma o caminho de uma reunião com o líder da oposição síria, em vez de gritar a ordem de ataque à força aérea francesa. Mudança nada francesa. Até, de certo modo, um pouco... “vegetariana”?!

François Hollande por DonkeyHotey

É claro que não faltaria ocasião para conversas com líderes da oposição síria, DEPOIS de a França ter “castigado” Damasco! (Líderes de “conselhos” e “coalizões” da oposição síria existem às dúzias e foram trocados como quem troca de lenço por EUA e União Europeia ao longo dos dois últimos anos. Que um deles tivesse de esperar um dia ou dois pelo encontro com Hollande absolutamente não seria problema).

Os membros da União Europeia também exibiram graus variados de tremedeira, frio na barriga e encolhimento – outro evento raríssimo, num corpo que “carimbou” tantas intervenções passadas.

Em reunião dos ministros de Relações Exteriores da União Europeia, só a Dinamarca manifestou desejo ativo de ir à guerra, com as devidas desculpas aos “entusiastas da guerra” (desculpem: aos entusiastas do “ataque limitado”). Itália, Polônia e Países Baixos foram acometidos de repentina síndrome de abstinência de mandado da ONU (nunca precisaram de mandado da ONU antes, nem quando atacaram a Iugoslávia, nem quando ocuparam o Iraque).
Reunião dos Ministros das Relações Exteriores da União Europeia em Vilna, Lituânia 

Em reunião de embaixadores da OTAN, sequer citaram a palavra Síria. A OTAN, nesse alto nível, declarou que preferia afastar-se da situação na Síria. Estranha atitude da organização que prometera ação “em todos os azimutes”. Ao que parece, a Organização do Tratado do Atlântico Norte decidiu imitar a atitude do proverbial sábio sábio oriental, que se senta à beira do rio e espera que passe por ali, trazido por aquelas puras águas, o cadáver de seu inimigo. É possível que o inimigo por cujo cadáver a OTAN espera seja o presidente Bashar al-Assad da Síria, mas talvez espere algum outro cadáver, porque todos os líderes da OTAN também já se puseram a dizer que “não planejam forçar mudança de regime” em Damasco.

Os cálculos fracassados dos “estrategistas de guerra”

Em momentos como os que estamos vivendo, a hipocrisia começa a trabalhar contra os hipócritas. É claro que os países ocidentais têm feito o diabo para que haja “mudança de regime” em Damasco, e desde o começo das hostilidades em 2011! Por que outro motivo derramariam ali tanto sangue e tanta tinta (e bits) e tanto dinheiro? E é claro que os mesmos países continuam a buscar hoje a mesma “mudança de regime” em Damasco.

Bashar al-Assad

Mas os cálculos fracassados, os erros de cálculo dos estrategistas ocidentais, esses, sim, já estão aí à vista de todos: o governo do presidente Assad comprovou ser muito mais estável e resistente do que esperado (a previsão é que seria derrubado há dois anos, em 2011). Essa resistência explica-se em parte pela crueldade, pela violência e pelo extremismo da oposição islamista síria – algo que a imprensa-empresa ocidental e seus “especialistas” jamais noticiaram ou comentaram satisfatoriamente.

Execuções públicas e interpretações extremistas da lei da Xaria afastaram o povo sírio, da “oposição” – mudança que, mais uma, também foi mantida absolutamente ocultada da opinião pública, pela mesma imprensa-empresa ocidental. (O famoso colunista do New York Times, Thomas Friedman, disse que, havendo eleições livres e limpas na Síria, Assad seria eleito; mas só o disse em reunião com jornalistas russos, nunca em sua coluna).

A situação de Assad permanecer no poder é terrivelmente embaraçosa para o establishment nos EUA, e essa é uma das razões da atual escalada. A tentação de corrigir os erros dos especialistas mediante bombardeio cerrado (bombardear Assad até obrigá-lo a deixar o poder e assim “provar” que os especialistas acertaram as previsões, embora com pequeno atraso) – é tentação forte demais. E o tempo voa: vai-se tornando cada vez mais difícil para a imprensa-empresa e para a comunidade de “especialistas” encobrir os erros e crimes da oposição síria. (Casos de mercenários da oposição que torturaram forças leais a Assad e ataques até contra jornalistas ocidentais já apareceram recentemente, no New York Times). Por tudo isso, de um ponto de vista de Propaganda & Relações Públicas, chegou a hora de os EUA “agirem”.

Thomas Friedman

Mas por que, afinal, Obama e seus aliados europeus encolheram-se? Não é muito difícil descobrir a linha de pensamento de Obama: se meus especialistas erraram uma vez, e avaliaram mal a força militar de Assad e sua popularidade entre os sírios, o que garante que não errem outra vez?

Obama conhece o real valor dos “conselheiros” que o cercam, saídos de think-tanks nos quais foram treinados, no tempo de Reagan, para sempre oferecer previsões otimistas - do tipo que os governantes gostam de ouvir – sobre o Iraque e a Líbia, a Ucrânia e a Geórgia.

Fato é que os últimos dez anos viram fracassar inúmeros prognósticos construídos por “especialistas” da Casa Branca – e não só no Iraque e no Afeganistão. Na Ucrânia e na Geórgia, repúblicas da ex-União Soviética, que os conselheiros norte-americanos tentaram converter simultaneamente em repúblicas afluentes e anti-Rússia, as forças pró-EUA sofreram derrotas eleitorais humilhantes, que a inteligência dos EUA, mais uma vez, não soube prever. Mas em vez de responsabilizar os “especialistas” incompetentes (demitindo-os, por exemplo), o establishment dos EUA usa a ação militar para “corrigir” os erros deles.

O maior medo de Obama é: e se a sorte abandonar o presidente dos EUA, outra vez? É quando Obama fraqueja e vacila. Mais uma vez, Obama deixa ver o seu principal traço de personalidade – a indecisão, a incapacidade para resolver. Mas sorte do mundo (embora seja caso raríssimo), em que a indecisão e a incapacidade para resolver talvez poupem o mundo de mais um desastre.

Anthony Zinni

Obama é, hoje, um homem dividido entre dois impulsos conflitivos – o desejo de mostrar-se “durão” frente ao Congresso e parte do público norte-americano, e o medo das consequências não previstas e não desejadas de sua guerra “limitada”. O Marine aposentado, general Anthony Zinni, lembrou ao presidente que Não existe gravidez “limitada”, triste verdade, que o Washington Post publicou. Quem vai à guerra tem de estar preparado para lutar até o fim.

Tudo isso pode levar a uma perigosa repetição do início da 1ª Guerra Mundial – todos os chefes de estado que iniciaram hostilidades naquele momento queriam uma guerra “limitada”. Todos eles contavam com que o seu próprio país escaparia impune. Todos só queriam “mandar um recado” que lançaria aos pés de cada um o espólio geopolítico com que cada um sonhava. O “recado” que a realidade mandou-lhe de “resposta”, foi terrível: 17 milhões de mortos e três impérios destroçados.

Obama deveria ouvir esse “recado”, antes de cogitar de mandar “recados” ao presidente Assad da Síria.

Redecastorphoto

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