segunda-feira, 23 de outubro de 2017

"Acima de tudo" – Junta-EUA mete as garras no poder, cada vez mais


Traduzido pelo coletivo da vila vudu

Numa campanha de publicidade em 2008, a Força Aérea dos EUA se autodeclarava "Acima de Tudo". Slogan e símbolo da campanha eram semelhantes à campanha dos alemães em 1933 "Deutschland Über Alles". Foi um sinal do que estava por vir.
Na 5ª-feira, Masha Gessen assistiu ao briefing para a mídia pelo comandante militar da Casa Branca general John Kelly e concluiu:



briefing pode servir como trailer do que seria um golpe militar nos EUA, porque o que Kelly expôs em seus quatro argumentos foi dito sob a lógica de um golpe militar.
1.       Os que criticam o presidente não sabem do que falam, porque não prestaram serviço militar (...)

2.       O Presidente fez a coisa certa, porque fez exatamente o que seu general o mandou fazer (...)

3.       Comunicação entre o presidente e a viúva de um militar é assunto que só diz respeito aos dois (...)

4.       Cidadãos são classificados segundo a proximidade em que estejam de morrer pelos EUA (...)


Gessen chega atrasada. O golpe já aconteceu há meses. Uma Junta militar está no controle das políticas da Casa Branca. E agora está afundando as garras na carne do poder.

Desde o início Trump foi o candidato dos militares. Os outros dois centros do poder dotriângulo do poder, as empresas e o governo Executivo (a CIA), ficaram com Clinton. O fantoche do Pentágono derrotou o fantoche da CIA. (A luta por Raqqa mês passada foi semelhante – com semelhante resultado.)

Dia 20 de janeiro, primeiro dia da Presidência não-Hillary, avisei:


Os militares cobrarão o que lhes é devido, que vai além dos três generais hoje no gabinete de Trump.


Com a ajuda da mídia-empresa, os generais da Casa Branca derrotaram o seu adversário civil. Em agosto, o navio Trump perdeu o piloto ideológico. Steve Bannon caiu fora. O inimigo militarista de Bannon, Conselheiro de Segurança Nacional general McMaster, vencera. E eu disse:


Quem governa agora os EUA é uma junta militar.


E depois expliquei:

O sucesso de Trump como o candidato "Não Hillary" baseou-se numa insurgência anti-establishment. Representantes daquela insurgência Flynn, Bannon e os eleitores a favor de "Make America Great Again, MAGA," conseguiram levar Trump nas costas durante os primeiros meses de governo. Foi lançada intensa campanha de mídia para destruí-los, e os militares assumiram o controle da Casa Branca. Os insurgentes anti-establishment foram demitidos. Trump está agora reduzido a chefe de uma estratocracia – uma junta militar que nominalmente respeita a lei.


Os militares tomaram o pleno controle sobre os processos e políticas da Casa Branca:


Tudo de importante agora passa pelas mãos da Junta (...) Para controlar Trump, a Junta filtra a informação que chega até ele e elimina quaisquer opiniões potencialmente alternativas (...). Os membros da Junta ditam suas próprias políticas a Trump, cada vez que só admitem que algumas alternativas, não todas, cheguem até o presidente. A que os generais considerem preferível, é a presentada ao presidente como a mais desejável. Cada vez mais frequentemente Trump ouvirá que "Não há alternativas".


Com o centro de poder capturado, a Junta começa a implementar sua ideologia e a suprimir toda e qualquer crítica que haja contra ela.

Na 5ª-feira, Kelly criticou a Congressista Frederica Wilson do Sul da Flórida, por ter ouvido (a convite) uma conversa telefônica entre Trump e viúvas de soldados norte-americanos:


Kelly continuou a criticar Wilson; mencionou a inauguração do prédio Miramar do FBI; disse que ela concentrou-se, no discurso, em dizer que ela mesma "conseguiu o dinheiro" para a construção.


O vídeo do discurso da Congressista (link acima) prova que o que Kelly disse não corresponde à verdade. Mas agora já ninguém tem licença para declarar a verdade. A Junta não mente, por definição. Quando dia seguinte jornalistas perguntaram à secretária de imprensa da Casa Branca sobre o injustificado ataque do general Kelly, ela respondeu:


MS. SANDERS: Se você quiser sair à caça do general Kelly, é decisão sua. Mas acho que que... – entrar em debate com um general da Marinha, de quatro estrelas, acho gesto altamente inapropriado.


Agora passou a ser "altamente inapropriado" até questionar a Junta que governa o Império.

Soldados dos EUA, especialmente oficiais com comando, vivem vida segura e cheia de regalias. Muitos empregos civis pagam menos e são mais perigosos. Construiu-se um mito em torno dos militares dos EUA, com a ajuda de milhões gastos em 'relações públicas' e em 'marketeiros'. Os militares dos EUA não vencem guerras, mas os soldados são vendidos como se fossem seres humanos melhores que a população em geral. Até os próprios soldados bebem desse elixir envenenado. 

No final de seu briefing à imprensa, o general Kelly fez pouco caso de todos que nunca se alistaram ou deram jeito de escapar do serviço militar:


Antes de deixar a bancada de onde falou, Kelly disse aos norte-americanos que não prestaram serviço militar, que tem pena deles. "Não baixamos os olhos para o nível dessa gente que não prestou serviço militar" – disse ele. "De fato, de algum modo temos até um pouco de pena de vocês, porque nunca conheceram a maravilhosa alegria que se sente no coração quando se faz o que nossos soldados e soldadas fazem – e só porque eles e elas amam esse país."


'Não baixamos os olhos para o nível de vocês. Para nós, vocês não passam de lastimáveis seres inferiores.' Mas que grande babaca. 

Se os soldados trabalham "só porque amam esse país", porque exigem salários? Por que os norte-americanos pobres são obrigados a pagar por 200 campos de golfe para militares? Porque soldados e soldadas "amam o país"? Só uns poucos dez mil, dos 2 milhões de militares que os EUA sustentam algum dia chegarão a ver um front de combate ativo.

E imaginem a "maravilhosa alegria" que Kelly sentiu "no coração" quando comandou o campo ilegal de torturas na Baía de Guantánamo:


Autoridade absoluta sobre uma população de prisioneiros jamais acusados ou condenados por qualquer crime, sobre os quais tinha controle total, Kelly sempre os tratou com brutalidade máxima. A resposta dele à greve de fome pacífica dos detentos em 2013 foi alimentá-los à força violentamente, confinamento em solitária e balas de borracha. Como se não bastasse, Kelly sabotou os esforços do governo Obama para transferir detentos, desconsiderando ativamente o desejo do próprio comandante-em-chefe.


O ex-capitão do Exército dos EUA e hoje diretor da CIA Mike Pompeo foi educado na Academia Militar dos EUA em West Point. Faz parte da Junta, instalado para controlar a concorrência. Pompeo também sonha com voltar a sentir a tal "maravilhosa alegria". Na 6ª-feira, prometeu que a CIA se tornará "agência muito mais malvada" [ing. much more vicious agency]. Em vez de apenas simular afogamento de 'terroristas' e dronar à bala famílias de pele morena, a CIA mais malvada de Pompeo estuprará crianças 'terroristas' e varrerá do mapa, com bombas atômicas, aldeias inteiras. A ameaça de Pompeo foi feita numa comemoração em que se reuniram a Junta e belicistas neoconservadores.

Dia 19 de outubro, o secretário da Defesa general Mattis foi questionado no Congresso sobre o recente incidente em Níger, durante o qual, dentre outros, vários soldados dos EUA foram mortos. Mattis demarcou  (vídeo 17h29) uma nova estranha métrica para envio de soldados dos EUA:


A qualquer momento em que enviamos tropas para qualquer lugar, sempre nos baseamos numa primeira pergunta bem simples, que é – o bem-estar do povo norte-americano estará suficientemente aumentado por estarmos pondo nossos soldados ali, por os pormos numa posição para morrer?


No briefing do dia 20 de outubro para a imprensa, o general Kelly também tentou explicar por que há soldados dos EUA no Níger:


Por que estão lá? Estão lá trabalhando com parceiros, locais – por toda a África – nesse caso, Níger – trabalhando com parceiros, ensinando a eles como serem melhores soldados, ensinando-os como respeitar direitos humanos...


E há militares norte-americanos realmente qualificados para ensinar alguém a respeitar direitos humanos? Será que aprenderam tantos saberes de tanto cometerem atrocidades em massa em praticamente todas as guerras que algum dia guerrearam?

Um dos soldados que foram mortos no Níger, quando "ensinavam como respeitar direitos humanos", foi um "especialista em química, biologia, radiologia e armas nucleares", de 39 anos, com mais de uma dúzia de prêmios e condecorações".

Os militares dos EUA enviaram um especialista altamente qualificado em Armas de Destruição em Massa numa "patrulha de rotina" no Níger, para ensinar soldados locais a "respeitar direitos humanos" porque com isso "o bem-estar do povo norte-americano" seria "suficientemente aumentado"?

Quem, onde, algum dia, compraria uma ponte dessas?! 

Mas quem se atreveria a perguntar mais sobre tudo isso? É "altamente inapropriado" duvidar do que digam os militares. Mais um pouco e lá estará escrito "verboten" [al. "proibido"]. Qualquer dúvida, qualquer pergunta, será logo declarada "notícia falsa" e sinal de perniciosa influência externa. E quem disser isso, ficará impedido de se comunicar.


Agora sim os militares realmente estão "Acima de Tudo". Aquele slogan da Força Aérea foi mesmo um remake da campanha de 1933 na Alemanha "Über Alles", Acima de Tudo. Que outras similitudes históricas brotarão dessa primeira?

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