terça-feira, 19 de junho de 2018

Iraque fraco e dividido tropeça rumo a futuro sem equilíbrio, por Elijah J. Magnier

Elijah J. Magnier, Blog

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

Entreouvido na Vila Vudu:


"Brasília é a neo-Bagdá [pano rápido]._

EUA, Irã e Arábia Saudita todos mandaram representantes ao Iraque para apoiar a reeleição de Haidar al-Abadi. O objetivo comum, em vez de indicar Iraque estável, manterá o país enfraquecido e politicamente dividido entre os principais grupos dominantes.
Sobretudo, a decisão do Parlamento, de anular os votos de iraquianos que residem fora do país, de cancelar 954 urnas em dez províncias, e de recontar manualmente as eleições de 12 de maio criará movimento de resistência, especialmente no movimento liderado por Moqtada al-Sadr. Al-Sadr, aparentemente contando com o maior número de deputados (54 cadeiras com votos, resultado não oficial), verá nessa ação movimento dirigido principalmente contra ele, especialmente quando o grupo é acusado, dentre outras coisas, de ser responsável por grande fraude em Bagdá e no sul do Iraque.

Representante dos EUA no Iraque, embaixador Bret McGurk, o general iraniano Qassem Soleimani e o enviado não oficial dos sauditas conhecido como Yahya estão visitando todos os partidos e grupos, para promover Haidar Abadi como futuro primeiro-ministro. Embora cada um tenha agenda fundamentalmente diferente dos demais, todos alcançarão o mesmo objetivo: o Iraque continuará fraco e politicamente dividido, e isso sob governo não harmonioso e primeiro-ministro que com certeza será incapaz de usar o poder para tirar o país do atual lamentável estado em que se encontra.

O Iraque lutou contra e derrotou um dos mais perigosos e desafiadores grupos terroristas de todos os tempos, o chamado 'Estado Islâmico' (EI, ing.ISIS). Continua a opor-se ao grupo. O EI esteve presente, de forma mais consistente nas províncias do norte dominadas por sunitas. Essas províncias sofreram destruição tremenda, que forçou dezenas de milhares de iraquianos a deixar suas terras, convertidos em migrantes internos. A guerra contra o EI provocou dano gravíssimo à infraestrutura, já semidestruída desde que os EUA ocuparam o Iraque em 2003 e até o presente, dada a corrupção endêmica entre os grupos que lideram a política iraquiana. A guerra também exauriu as reservas do banco central do Iraque, e empréstimos internacionais só aumentaram o déficit.



O primeiro-ministro Haidar Abadi – por natureza e personalidade – parece incapaz de empregar a mão de ferro indispensável para manter coeso o país. Curva-se aos desejos de muitos diferentes grupos políticos, especialmente xiitas, que têm considerável peso político, ainda maior que o partido Da’wa, de Abadi.



Até o Marjaiya [corpo de altas autoridades xiitas] em Najaf crê que Abadi "poderia ser primeiro-ministro num país europeu, mas não no Iraque, estado que tanto carece de vontade e determinação para resistir à corrupção e opor-se à interferência estrangeira". Najaf teve importante papel no serviço de divulgar entre a população a ideia de que não há incentivo para votar, porque "é sempre a mesma gente que volta ao poder outra e outra e outra vez". Na verdade, até no círculo mais próximo do Grande Aiatolá Sistani muitos dizem que "votar nessas eleições, com esses candidatos, é ação dúbia, mesmo de um ponto de vista religioso".

Apesar da decisão do Parlamento, de revogar a contagem eletrônica por causa de fraudes em muitas províncias e no exterior, Moqtada al-Sadr assinou um acordo de parceria com Sayyed Ammar al-hakim e Ayad Allawi. Os três grupos somados não alcançam nem metade do número mínimo de votos (165) ainda que se considerem como não vagos os cadeiras que esses grupos reuniram. Assim sendo, será muito difícil formar uma grande coalizão com o necessário número de votos, no prazo legal.

De fato, os iraquianos discordam do resultado das eleições, e a contagem manual dos votos empurra o país rumo ao desconhecido. Ao final do corrente mês de junho, o Parlamento será considerado dissolvido. A Constituição proíbe que o Parlamento auto-renove o próprio mandato. A menos que emita um decreto pedindo que o primeiro-ministro ordene novas eleições no prazo de seis meses (a verificar, estou especulando), o atual governo permanecerá no poder por tempo demais com poder de menos e sem qualquer transparência – e sem entidade legal que controle seus atos. Se acontecer assim, Abadi permanecerá como primeiro-ministro (fraco) na chefia de um governo sem qualquer poder legal.




Moqtada al-Sadr pode recusar nova eleição, ele que se considera na chefia do maior grupo, com o maior número de votos no Parlamento. Além do mais, parece quase impossível para qualquer coalizão manter-se coesa e acumular mais de 165 assentos no Parlamento, de modo a poder indicar um primeiro-ministro no prazo limite. Os maiores grupos são xiitas, e estão divididos nos próprios grupos.



Parece que os políticos iraquianos e EUA, Irã e Arábia Saudita todos decidiram entre eles manter o Iraque fraco, cada um por várias razões:



– Poucos líderes iranianos querem poder para si mesmos. Haidar Asbadi não se unirá a Moqtada al-Sadr porque teme o líder sadrista. Moqtada prendeu em al-Hannana (casa de Moqtada em Najaf) o vice-primeiro-ministro, sadrista, e nada garante que não faça o mesmo com Abadi se se unirem em 'coalizão'. Moqtada também ordenou que seu grupo ataque a "zona verde" mais bem guardada, só para "puxar a orelha de Abadi" e "dar-lhe uma lição". Por outro lado, Nouri al-Maliki recusou-se entregar o posto de primeiro-ministro a Abadi que "roubou [de Maliki] a posição, com apoio do Grande Aiatolá Sistani e outros xiitas que conspiraram contra", como disse o próprio al-Maliki.




Além disso, Hadi al-Ameri é convicto hoje, o suficiente para renunciar ao posto de primeiro-ministro, se isso satisfizer Nouri al-Maliki. Mas isso não combina com promover Abadi a primeiro-ministro.

– Os EUA não querem um Iraque forte, que possa apoiar o "eixo da resistência". Iraque forte, na visão dos EUA, é Iraque controlado pelo Irã (ideias completamente errada).

– Um Iraque forte também representa ameaça a Israel e a países vizinhos no Oriente Médio, sobretudo à Arábia Saudita. O Iraque não pode permanecer saudável e forte sob governo de xiitas e (na visão dos sauditas) sob influência do Irã: mais aceitável é um Iraque dividido, para impedir qualquer aliança com Irã e Síria num só eixo contra os sauditas.

– O Irã também teme os políticos iraquianos, sempre interessados em pular nos braços dos EUA, considerando especialmente a presença de uma forte corrente de animosidade contra Teerã na Marjaiya, entre muitos políticos e na rua iraquiana. Já há uma forte Frente de Mobilização Popular [Hashd al-Shabi], capaz de defender o Irã contra qualquer controle hegemônico pelos EUA.


Assim, dados todos esses elementos, parece lógico para muitos que o Iraque continuará muito fraco. Parece andar na direção de um governo fraco, ou de nem haver eleições. Já está sob controle das milícias no Parlamento e na maioria das posições chaves, cenário que muito agrada à maioria dos atores de fora (EUA, Irã, Arábia Saudita) e conta com o apoio e a colaboração de muitos iraquianos.

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