quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Do Mar Báltico ao Mar Negro, Rússia busca ganha-ganha, por Pepe Escobar

Pepe Escobar, Asia Times

Vem aí reunião ampla de Alemanha, Rússia, França e Turquia. Praticamente, Eurovision expandido

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu


Quando o presidente Vladimir Putin, esfuziante depois de uma aparição de grande astro no casamento da primeira-ministra da Áustria Karin Kneissl, surgiu no Palácio Meseberg, do século 18, ao norte de Berlim, no sábado à noite, para uma conversa face a face com a chanceler alemã Angela Merkel, a surpresa foi geral: a reunião fora anunciada apenas uns poucos dias antes.
Conversaram durante três horas, com cardápio variado: acordo nuclear iraniano; o impasse sem fim na Ucrânia; o aspecto humanitário, na Síria; o gasoduto Ramo Norte 2.

Angela Merkel não é parte do supergrupo Os Sancionados – não está portanto na mesma liga dos multi-instrumentistas Putin, Xi, Rouhani e Erdogan. Ela só foi tarifada, por ato solo de Trump; não foi sancionada. Não é uma Suzi Quatro, para nem falar de Joan Jett, embora possa começar tipo I hate myself /for loving you [Eu me odeio por amar você] à frente de Putin. Angela é mais tipo moça fina do coro que veio da Estônia para competir no festival Eurovision.

Por tudo isso, nem chega a ser surpresa que quando a verdadeira surpresa afinal veio à tona em Meseberg, a coisa parecia um pouco edição remix de festival Eurovision da canção.

Como fontes diplomáticas confirmaram para Asia Times, está em preparação uma reunião de Alemanha, Rússia, França e Turquia. Praticamente versão expandida de Eurovision – com a Turquia incluída por ser membro (periclitante) da OTAN.

Ostensivamente, o tema da reunião será a Síria – segundo o Kremlin. Mas não faz sentido – a Síria já está sendo discutida em detalhes em Astana, por Rússia, Irã e Turquia.

Caso é que, com Os Sancionados e Os Tarifados dividindo o palco, o que fazem é mostrar atitude de desafio contra o solo de Trump. A ideia para a manchete arrasa-quarteirão veio do membro Robert Plant-esco de Os Sancionados, Erdogan, pronto, até com data marcada: 7 de setembro. A sempre cautelosa Merkel só admitiu, no máximo, que a reunião "tem de fazer sentido – é coisa que tem de ser bem preparada, quer dizer, ainda não há data marcada". 

Fato é que os carregadores sherpas multinacionais já estão trabalhando na coisa. Paralelamente, os ministros das finanças de Turquia e França não só concordam com reagir contra sanções à Turquia, mas também com vir com mais cooperação econômica bilateral. Macron Rei Sol está morrendo de vontade de que a temporada da estrela dele entre Os Tarifados alcance um disco de platina.

I stream, you stream,* we all do [gasoduto] Ramo Norte

Da perspectiva da Rússia, o jogo muito complexo vai muito além de um festival Eurovision reformado; tudo aí tem a ver com a batalhe geopolítica no intermarium – entre o Mar Báltico e o Mar Negro.

Putin fez a gentileza de enfatizar que o gasoduto Ramo Norte 2, de €9,5 bilhões (US$10,8 bilhões) é "projeto puramente econômico", o que não implica necessariamente que o trânsito do gás pela Ucrânia parará: "Conheço a posição da Chanceler Federal. A única coisa que nos interessa é que esse trânsito seja economicamente factível... e faça sentido econômico."

Gazprom – sócia no gasoduto Ramo Norte 2 de outras duas gigantes de energia da Europa Ocidental – já concluíram, nos idos de 2015, que o trânsito pela Ucrânia não faz absolutamente nenhum sentido econômico. Merkel porém – depois de tanto ter investido no cenário Maidan – permanece inamovível; mesmo depois de o gasoduto Ramo Norte 2 estar operante, ela ainda insiste que a Ucrânia "deve desempenhar seu papel no trânsito do gás até a Europa."

Putin exibe níveis Lao Tzu-escos de paciência sempre que é obrigado a re-explicar o caso Ucrânia: "No contexto do acordo para superar a crise ucraniana, o qual, lamentavelmente, ainda não avançou, estamos inclinados a destacar a falta de alternativa à implementação dos acordos de Minsk; a afirmar nosso interesse em trabalhar dentro do formato Normandia e grupo de contato, nossa disposição para continuar a cooperar com a missão especial de monitoramento, da ONU."

Kiev vive de sabotar os acordos de Minsk, em tempo integral – e essa é a razão pela qual "não há cessar-fogo estável", como até Merkel admite.

Nessas condições, Putin teve de reverter ao óbvio: Ramo Norte 2 [ing. North Stream 2] "permitirá melhorar o sistema europeu de transporte do gás, diversificar as rotas de suprimento e minimizar os riscos do percurso, e, ainda mais importante, permitirá atender à crescente demanda da Europa, por energia."

Ramo Norte 2 – da Rússia pelo subsolo do Mar Báltico até as praias da Alemanha – deve estar pronto pelo fim de 2019. O novo gasoduto duplica a capacidade do Ramo Norte original e segue a mesma rota. Segundo pesquisa recente, Ramo Norte 2 foi aprovado por 66% dos alemães. Agora, o sonho do solo de Trump, de ter os europeus a comprar "vastas quantidades" de gás natural liquefeito (GNL) made in USA, já parece, mesmo, miragem, como reunião com Pink Floyd.

I see a sea and I want it painted black
Vejo um mar e quero o mar pintado de preto

O ângulo Ramo Norte 2 provou que Putin e Merkel concordam em muitos pontos da geoeconomia do Báltico. Também concordam em preservar o acordo nuclear iraniano [JCPOA]. Mesmo assim, Merkel acrescenta uma condição vinda diretamente do Departamento de Estado na Av. Beltway: a Alemanha "acompanha com preocupação o programa de mísseis ou a situação na Síria." Você consegue tirar a garota de dentro das tarifas excepcionais, mas você não consegue tirar o excepcionalismo de dentro da garota.

O ângulo preferido sobre 'a Síria', quando Os Sancionados encontram Os Tarifados virou agora humanitário – menos contencioso, certamente, do que se se tratasse de quem está realmente vencendo a guerra, por que e como.

Putin destacou que há milhões de refugiados sírios na Jordânia, no Líbano e na Turquia, "carga potencialmente enorme" para a Europa: "Eis por que temos de fazer de tudo para que essas pessoas possam voltar para casa" e restaurar "os serviços básicos", como cuidados médicos e assistência à saúde e fornecimento de água. E "acho que todos estão interessados nisso, inclusive a Europa." Merkel concorda.

E vem então o super astro de Os Sancionados, Erdogan e seus rompantes imprevisíveis: The hammer of the gods / We’ll drive our ships to new lands / To fight the horde, and sing and cry / Valhalla, I am coming! [Immigrant Song, Led Zeppelin]** 

Garantido mesmo, por enquanto, é que absolutamente não acontecerá qualquer 'resgate' da Turquia, pelo FMI; Erdogan não conseguirá vender essa ao seu público local. Opções no horizonte vêm do Qatar – $15 bilhões em investimentos já contratados – e da China, pronta a aprofundar a conectividade da Turquia à Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE)/Novas Rotas da Seda.

Durante o governo Obama, foi lançada a Guerra Fria 2.0 contra a Rússia, com transpor a velha Cortina de Ferro pelo intermarium, do Mar Báltico ao Mar Negro. Uma Ucrânia – que chega ao Mar Negro – pós-Maidan anti-Rússia – é parte central da estratégia.

E agora a Turquia fornece a Moscou a abertura perfeita para esmagar o tabuleiro geopolítico e destruiu a ofensiva já montada – que inclui elementos chaves, da incansável expansão da OTAN até sanções, em guerra econômica sem qualquer limite.

O que se passa na Turquia extrapola em muito um bando de bancos europeus expostos à dívida de Ankara e um possível contágio, por efeito dominó, de mercados emergentes. O coração do conflito tem a ver com o Mar Negro.

O papel principal de uma Kiev anti-Rússia é quebrar a expansão da União Econômica Eurasiana (UEE).O papel principal da Turquia na OTAN é quebrar toda a integração da Eurásia, toda ela – especialmente a complexa intersecção para a qual convergem a ICE, a UEE e a OCX.

O desastre dos "rebeldes moderados" na Síria acabou com o projeto do Departamento de Estado de impedir a Rússia de chegar ao Mediterrâneo Oriental. A Crimeia reintegrada à Rússia frustrou a estratégia do Departamento de Estado para controlar o Mar Negro. Até a cantora Merkel de back-vocal de Eurosivion está começando a ter alguma noção das complexidades que se somam no front unificado Síria-Ucrânia.

Toda a mística de Os Sancionados crescerá de agora em diante e, se acontecer mesmo, eles estarão em posição de estrelar, com brilho próprio, com performance de supergrupo. O derradeiro movimento do xadrez do multi-instrumentista russo talvez seja tornar a Turquia, no mínimo, indiferente à OTAN, desinteressada dela – e comandar o Mar Negro como condomínio russo-turco. Estão ouvindo aquele groove de Pinte Tudo de Preto ecoando à volta do Kremlin?*******



* Tradução im-po-s-sí-vel [risos]. Tomamos 11 cervejas tentando achar uma saída, sem resultado. Parece que há aí um eco, por aliteração, de I Scream, You Scream, We All Scream for Ice Cream [Eu grito, você grita, todos gritamos por sorvete], canção de 1927 (aqui na versão Eric Clapton & Marsallis), com streaming e, claro, também com Nord Stream 2, o gasoduto, cujo nome temos traduzido como "Ramo Norte"; mas "stream" corresponde, mais literalmente ao 'fluxo', à 'correnteza', como de um regato, ou de gás. Toda ajuda e qualquer correção são bem-vindas [NTs].
** [O martelo dos deuses / Navegaremos nossos barcos para novas terras / Para combater a horda, e cantar e gritar / Valhalla, aqui vou eu! ]

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