sábado, 29 de setembro de 2018

Duas palavras-chaves para o EUA-imperialismo: ‘Justificativa’ e ‘Plausibilidade’, por Federico Pieraccini

Federico Pieraccini, Strategic Culture Foundation
Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu
Nos habituamos em anos recentes a que intervenções humanitárias sejam justificadas pelo pressuposto de que os EUA e o Ocidente estariam de algum modo intervindo militarmente a favor ou na defesa de civis inocentes ameaçados por ditadores brutais. 
Essa justificativa para intervenção armada é o fator chave ou a causa direta da expansão do EUA-imperialismo. A mídia comercial usada como instrumento de guerra – com mentiras, histórias artisticamente forjadas [‘fake news’], omissões propositais e desinformação atentamente orientada – muito ajudou o EUA-imperialismo a justificar intervenções armadas em todo o mundo.
Sempre há algum tipo de justificativa, argumento ou pretexto apresentado quando Washington intervém para criar mais e maior conflito. As desculpas viraram cenas clássicas na Iugoslávia em 1999, no Afeganistão em 2002, no Iraque em 2003, e na Líbia em 2011. Com Iugoslávia e Líbia, a justificativa apresentada ao público foi a mentira de que estariam protegendo direitos humanos. Os ataques de 11 de setembro de 2001 foram usados para justificar ataques ao Afeganistão e ao Iraque em 2002 e 2003, com toda a culpa jogada sobre esses países. A guerra ao terror ‘em geral’ serviu como perfeita justificativa para que os EUA levassem o caos a praticamente todos os cantos do planeta.

Claro que são desculpas, concebidas para serem vendidas na arena internacional. Nada justifica bombardear um país, destruir completamente serviços e infraestrutura e matar dezenas de milhares de pessoas inocentes. Mas o EUA-imperialismo trabalha como um rolo compressor. A engenhosa criação de alguma causa humanitária dá luz verde para que os norte-americanos façam chover bombas mortíferas para salvar pobres e oprimidos. Tudo isso é possível graças à retórica falsa e nauseabunda da mídia-empresa que cria condições ideais para justificar o crime de guerra hediondo que é agredir uma nação soberana.

Essas justificativas são uma das ferramentas imperialistas mais mortíferas e dissimuladas empregadas pelo poder conglomerado euro-norte-americano para impor sua visão unipolar de relações internacionais, o braço forte que cai sobre quem quer que procure qualquer nova via nas relações internacionais. O objetivo é quebrar (com bombas e propaganda) a visão que tenham quaisquer países que aspirem a modificar a ordem mundial perversa, doentia e corrupta comandada por Washington.

Em tempos mais recentes, essa estratégia de guerra baseada em justificativas espúrias passou a incluir um novo tipo de simulacro, mais sutil e mais bem adaptado aos fins que movem os imperialistas. Dado que Washington perdeu a capacidade para decidir a situação em campo em teatros de guerra como o do Iraque e da Síria, o ‘procedimento’ hoje é semear a mais completa destruição e o mais absoluto caos.

Isso é feito mediante o que se chama “negabilidade plausível”, que ajuda a encobrir operações clandestinas. Exemplo disse se vê na Síria, onde Washington fornece armas ao Exército Sírio Livre (ESL) grupo terrorista dito “rebelde moderado”, e essas armas, não se sabe como, acabam sempre chegando aos arsenais da Frente Al Nusra e do ‘Estado Islâmico’ (Daech). Essa situação existe há anos, com Washington usando o Daech e a Frente Al Nusra para fazer guerra contra o governo do presidente Assad. Mas preserva cuidadosamente a possibilidade de negar que faça o que faz, porque só repete e faz repetir que só estaria armando e treinando rebeldes moderados, não terroristas extremistas.

Claramente há aí um caso óbvio de negabilidade plausível. Os EUA dizem que só fornecem armas a “rebeldes” que lutam para derrubar o governo legítimo e reconhecido do presidente Assad, mas, na realidade, os tais “rebeldes” nem existem; não passam de siglas diferentes para vários grupos de extremistas islamistas. É portanto natural que as armas entregues aos ‘rebeldes’ acabem nos arsenais do ISIS ou da Frente Al-Nusra. Nas raras ocasiões em que jornalistas interessem-se por saber como armas norte-americanas acabam nos depósitos do Daech ou da Frente Al Nusra, autoridades dos EUA podem negar, plausivelmente, que tenham armado intencionalmente qualquer grupo terrorista.

Negabilidade plausível e ‘justificativas’ para mais e mais guerras são duas manifestações do mundo alucinatório no qual vivemos, baseado em conspirações, não em algum fato ou realidade. 

Nenhum jornal ou jornalista questiona se a justificativa para as guerras dos EUA seria legítima. Nenhum jornal ou jornalista pergunta se algum dia houve realmente algum elo que unisse o Iraque e a Al-Qaeda. Muito mais fácil é repetir incansavelmente a propaganda dos EUA. Ninguém investiga. Ninguém pergunta se o Exército Sírio Livre existe, ou se é só uma sigla vazia, como FDS – Forças Democráticas Sírias, que são curdas. Só mais um artifício para garantir negabilidade plausível e encobrir a ilegalidade do envolvimento dos EUA na Síria.

Evidentemente não há justificativa, nem negativa plausível que consiga livrar os EUA dos incontáveis crimes de 70 anos de esforços para consolidar seu poder sobre outros países, ou para impedir que países soberanos implantem políticas independentes de Washington. Mas o que se vê mais claramente a cada dia, é como, graças a informação que nos chega de fontes alternativas, a justificativa para novas guerras e as negativas plausíveis perdem credibilidade dia a dia, entre as populações em todo o mundo.

Décadas de mentiras e omissões mostraram aos cidadãos da Europa e dos EUA que a imprensa talvez tenha muito mais interesse em proteger os interesses de seus proprietários e gerentes, do que em revelar alguma verdade. Resultado disso, as mídias alternativas, as mídias online e gigantes alternativos como China Global Television Network (CGTN (ing.) e em espanhol), RTTeleSUR e PressTV ganham audiência em todo o mundo, simplesmente noticiando o modo como a verdade maquiada que a mídia ocidental distribui para o mundo existe exclusivamente para ‘justificar’ a injustificável presença de tropas ocidentais em todos os países do mundo, ou para garantir “negabilidade plausível” às operações clandestinas menos palatáveis.

A nova perspectiva que as mídias alternativas oferecem vai aos poucos desnudando as mentiras passadas relacionadas ao Iraque, à Síria, ao Iêmen ou ao Donbass, mostrando como mentiras e noticiário forjado [“fake news”] as justificativas dadas para bombardear e matar civis, subjugar populações inteiras, com o único objetivo de tentar fazer avançar os objetivos geopolíticos dos EUA.

A população mundial está cada vez mais bem informada graças ao acesso ampliado à Internet e a um crescente interesse por notícias confiáveis. É fenômeno que ganha mais força quanto mais completamente vão sendo desmascarados os golpes e invencionices da mídia-empresa dominante. CNN, The New York Times, Al Jazeera, BBC e tantas outras redes e veículos mostraram, por anos a fio, às populações de Europa, EUA e Oriente Médio, versões parciais da realidade, forjadas, fake e manipuladas, com o objetivo de justificar ações criminosas de todo o tipo. A meta sempre foi garantir a possibilidade de todos os criminosos negarem, plausivelmente, os próprios crimes, para poderem continuar a matança de número cada vez maior de inocentes.

Aos poucos, mais e mais ‘declarações’ de altos funcionários dos EUA são reexaminadas a luz de fatos que se agora se tornam conhecidos e podem ser avaliados corretamente. 

As palavras de Obama ‘garantindo’ que os EUA jamais forneceram armas ao ISIS já foram integralmente desmentidas por grande quantidade de provas de que, sim, os EUA armaram, perversamente, os terroristas do Daech. Assim também, Clinton celebrando o assassinato de Gaddafi (“Viemos, vimos, ele morreu” /"We came, we saw, he died"), ou Madeleine Albright justificando [“valeu a pena”] a morte de 500 mil crianças iraquianas por efeito das sanções  e das bombas norte-americanas de 1991 a 2003, são cenas que voltam dos infernos para cobrar seu preço. Todas essas mentiras foram expostas, e feriram muito fundamente a credibilidade do establishment ocidental.

Os três exemplos de Iraque, Líbia e do próprio Obama são a mais clara e indesmentível expressão da falsidade e das mentiras de que o imperialismo fez meio de vida. Nunca houve EUA que combatessem por causa nobre, sacrificando-se pela humanidade na luta contra a tirania. A realidade é bem outra: EUA são agentes do caos e da destruição. A revelação dessas mentiras, mais que qualquer outro fator, pode acelerar o despertar global e completar o processo que levará à rejeição de todo o imperialismo – que não sobrevive sem suas falsas justificativas e alguma negabilidade plausível que o absolvam de pelo menos uma parte de seus crimes.


Sem a credibilidade que lhe valia como salvo conduto, as empresas de mídia veem-se diante da tarefa impossível de ter de enganar populações inteiras que já começa a despertar e nunca mais se deixará enganar como antes. As pessoas estão fartas de guerras e de mentiras construídas para justificar as guerras. E já começam a decifrar e compreender as técnicas e truques criadas para justificar as políticas imperiais dos EUA.

blogdoalok

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