segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Doravante, para Putin, elites ocidentais são “suínas”, por Dmitry Orlov

Dmitry Orlov, Rússia Insider
Traduzido pelo Coletivo Vila Mandinga


Artigo que publiquei há quase cinco anos, “Putin às elites ocidentais: Acabou a brincadeira”, converteu-se no maior sucesso popular até hoje, com mais de 200 mil leituras ao longo dos anos seguintes. Naquele artigo, escrevi sobre o discurso de Putin na conferência do Clube Valdai de 2014. Naquele discurso, o presidente da Rússia definiu as novas regras pelas quais a Rússia conduz sua política exterior: abertamente, à vista do público, como nação soberana entre nações soberanas, afirmando os próprios interesses nacionais e exigindo ser tratada como igual. Mais uma vez, as elites ocidentais não ouviram o presidente Putin.
Em vez de cooperação mutuamente benéfica, insistiram na linguagem das acusações alucinadas, e em sanções contraproducentes e desdentadas. Assim aconteceu que, no discurso de ontem à Assembleia Nacional Russa, ouviu-se claramente o tom do mais completo desdém, do mais total desprezo de Putin por seus “parceiros ocidentais”, como o presidente costumava dizer. Dessa vez, Putin chamou-os de “porcos”.

A mídia-empresa fábrica de fake news


A fala anual do presidente à Assembleia Nacional não é pouca coisa. A Assembleia Nacional russa não é como, digamos, a da Venezuela, que de fato é constituída de alguns ninguéns obscuros chamados Juan, que gravam vídeos para Youtube no próprio apartamento. Na Rússia, reúnem-se todos os nomes significantes na política russa, incluindo os ministros do gabinete, funcionários do Kremlin, o Parlamento do Estado, governadores regionais, líderes empresariais e intelectuais especialistas em política, além de uma multidão de jornalistas. Esse ano, chamou a atenção o alto nível de tensão palpável na sala: a atmosfera parecia eletrificada.



Logo se viu por que o alto escalão da burocracia russa estava nervoso: o discurso de Putin foi em parte palavras de ordem para a marcha adiante, e em parte reclamação e reprimenda. Seus planos para os próximos poucos anos são extremamente ambiciosos, como o próprio presidente admitiu. A barra está posta bem alto, disse ele, e quem não estiver à altura do desafio, nada ganhará com se aproximar. Há muito trabalho muito duro pela frente para praticamente todos que se reuniam naquele salão, e os que não cumprirem as metas não contem com estar de volta ano que vem, porque a carreira deles terá terminado em desgraça.

A fala praticamente não trouxe más notícias e trouxe várias notícias excelentes. As reservas financeiras da Rússia são mais que suficientes para cobrir toda a dívida externa do país, pública e privada. A exportação de itens não-energia estão bombando, a ponto de a Rússia já não precisar das exportações de petróleo e gás para manter positiva a balança comercial. O país tornou-se praticamente imune a sanções ocidentais. Os projetos de integração eurasiana vão muito bem. Os investimentos do governo russo na indústria já pagam dividendos. 

O governo acumulou vastos capitais, os quais, agora, serão investidos em programas domésticos concebidos para beneficiar a população, ajudar os russos a viver melhor e mais saudavelmente, vidas mais longas e a ter mais e mais filhos. “Mais filhos – menos impostos” foi um dos melhores slogans do discurso de Putin. Disso tratou o discurso em sua maior parte: erradicar o que resta de pobreza na Rússia; hipotecas a juros baixos, subsidiados, para famílias com dois ou mais filhos; aposentadorias indexadas acima, pela inflação e acima, também do salário mínimo oficial (corrigido e pago retroativamente); internet de alta velocidade para cada uma e todas as escolas russas; acesso universal aos serviços de atenção à saúde, com criação de uma rede de clínicas rurais; várias clínicas de oncologia de primeiro mundo; apoio a empresasstart-ups de tecnologia; um programa de “contrato social que ajude as pessoas a iniciar pequenos negócios; outro programa denominado “ticket para o futuro” que permite a alunos de 6ª série escolher um início de carreira que inclua programas de estudos dirigidos, orientadores de formação e estudos e instrução prática; vários novos projetos de infraestrutura como a autopista Moscou-São Petersburgo, a ser iniciado imediatamente, remodelação da coleta e reciclagem de dejetos e projetos para grandes reduções na poluição do ar em dúzias de grandes cidades; e a lista segue, longuíssima. 


Não se ouviu nenhuma voz digna de nota de oposição a essas propostas, em nenhuma coluna de comentário nos noticiários e talk shows; afinal, quem, em sã consciência se oporia a o Estado investir em projetos que ajudam os cidadãos, o dinheiro que tenha economizado?

A meta provavelmente mais ambiciosa que Putin fixou seja refazer todo o sistema de regulações do governo russo, federal e regional, em todas as esferas da vida pública e do comércio. Ao longo dos próximos dois anos, serão examinadas todas e quaisquer regulações vigentes, para determinar se cada uma delas é necessária e se ainda responde a necessidades contemporâneas; as que não sirvam mais para a realidade de hoje serão eliminadas. Assim será possível aliviar consideravelmente a carga da burocracia, o que reduzirá o custo de negociar. 



Outra das metas é manter o crescimento do já florescente setor exportador agrícola. Ano passado, a Rússia alcançou a autossuficiência no estoque de sementes de trigo, mas a grande meta é alcançar a total autossuficiência em comida, e tornar-se fornecedor mundial de comida ecologicamente limpa. (Como Putin registrou, a Rússia continua a ser a única grande potência do agro-business mundial que não se deixou contaminar pelos venenos norte-americanos conhecidos como Organismos Geneticamente Modificados.) Outra grande meta é fazer avançar ainda mais a indústria do turismo na Rússia, que cresce sem parar, introduzindo vistos eletrônicos para turistas, muito mais fáceis de obter.



A fala do ano passado surpreendeu o mundo pela segunda parte, na qual Putin revelou um grande conjunto de novos sistemas de armas que efetivamente puseram fim ao que restasse da ‘superioridade’ militar dos EUA. 



Esse ano, o presidente apenas acrescentou um novo sistema: um míssil cruzador supersônico chamado “Zirkon”, com alcance de 1.000 km e que voa a velocidade Mach 9. Mas também ofereceu relatório do andamento dos demais sistemas: tudo continua a ser feito exatamente conforme os planos; algumas das novas armas já foram entregues, outras estão já em processo de produção em massa, o resto passa por testes finais. Falou a favor de normalizarem-se as relações com a União Europeia, mas acusou os EUA de “hostilidade”. Acrescentou que a Rússia não ameaça ninguém e não tem interesse em confronto de qualquer tipo.

As palavras mais duras, Putin as reservou para a decisão dos EUA de se desligarem do Tratado dos Mísseis de Alcance Intermédio [ing. Tratado IMF]. Disse que os EUA agiram de má fé, ao acusarem a Rússia de ter violado o tratado, no instante em que os próprios EUA o estavam violando – especificamente os artigos 5 e 6, ao instalar sistemas de lançamento duplo na Romênia e na Polônia, que podem ser usados para armas nucleares de defesa, e também para armas nucleares ofensivas, o que o Tratado IMF proíbe especificamente. 



Mísseis cruzadores Tomahawk, que os EUA podem implantar na Polônia e na Romênia, implicam obviamente risco para a Rússia, mas não dão aos EUA qualquer capacidade extra para um primeiro ataque nuclear, dado que aqueles mísseis cruzadores são obsoletos – a ponto de até as defesas aéreas do tempo dos soviéticos ativas na Síria bastaram para derrubar praticamente todos os Tomahawks que os EUA dispararam contra o povo sírio, para castigar os sírios por ‘ataque com armas químicas’ que jamais existiu, que foi encenado em Douma.



Falando do sonho dos EUA de ter um sistema global de defesas aéreas, Putin disse aos EUA que “esqueçam para sempre essas ilusões”. Os EUA podem pensar o que bem entendam, mas a questão é “sabem fazer contas”? Assunto encerrado.



Primeiro, os norte-americanos podem pensar o que lhes dê na telha, porque são norte-americanos. Os russos não se dão o luxo de pensar imbecilidades e tolices perfeitas. Quem não se baseia em fatos e em boa lógica, tende a levar pelas fuças, com extrema facilidade, o termo russo “likbez”. Traduz-se literalmente como “vá estudar, e ponha fim ao próprio analfabetismo”, e é usado para fazer calar os mais idiotas. 



Mas nos EUA aceita-se como normal uma taxa chocante de ignorância. Por exemplo, ninguém precisa ir além do espantosamente idiota “Green New Deal” promovido por Alexandria Ocasio-Cortez, aquela entidade nem feminina nem masculina porque é superior a essas tolas diferenças. Se fosse entidade russa/russo, já teria sido mandado(a) passear, numa onda de gargalhadas.



“Mas sabem fazer contas?” Parece que não! Há outro termo russo – “matchast” – literalmente “a parte material”, mas que significa o tipo específico de entendimento ao qual só se chega pelo conhecimento da matemática, das ciências duras e da engenharia. Na Rússia, analfabetas(os) funcionais como Ocasio-Cortez, que acha que transporte bom é feito por veículos elétricos movidos a vento ou sol, são imediatamente mandadas(os) passear e despachadas(os) para estudar “matchast”. Nos EUA candidatam-se e são eleitas(os) e põem-se a cacarejar pelos salões do Congresso. 



Nesse caso, se os norte-americanos soubessem “fazer contas” rapidamente teriam percebido que não há sistema defensivo concebível que realmente contenha as novas armas russas e que impeçam a Rússia de lançar ataque retaliatório que ninguém possa conter, e que, portanto, a “nova corrida armamentista” (que alguns norte-americanos foram ingênuos a ponto de anunciar) está efetivamente superada e a Rússia venceu. Vejam acima: a Rússia não está gastando o próprio dinheiro em armas; está gastando para ajudar o próprio povo. Os EUA podem torrar quantidades arbitrárias de dinheiro em armas, mas nada alterará uma vírgula no processo: de modo algum cogitarão de atacar a Rússia.



A Rússia não planeja ser o primeiro lado a violar o Tratado dos Mísseis antimísseis [ing. Tratado ABM], mas se os EUA implantam armas nucleares de alcance intermédio contra a Rússia, nesse caso a Rússia responderá à altura e tomará por alvo não só os territórios dos quais seja ameaçada, mas também as locações de onde são tomadas as decisões de atacar. Washington, Bruxelas e outras capitais da OTAN com certeza estarão nessa lista de alvos. E sequer seria novidade: a Rússia já anunciou que, qualquer próxima guerra, caso haja guerra, não será combatida em solo russo. 



A Rússia tem planos para levar imediatamente o combate para território inimigo. Claro que não haverá guerra – supondo que os norte-americanos sejam suficientemente mentalmente saudáveis para perceber que atacar a Rússia é funcionalmente equivalente a se atirar contra armas atômicas. Serão suficientemente sãos mentalmente? Essa é a pergunta que, hoje, mantém o mundo refém.



Ao falar dos norte-americanos, Putin usou a palavra mais forte de todo o discurso. Ao falar da desonestidade e má fé dos norte-americanos ao acusar a Rússia de ter violado o Tratado ABM quando foram eles que o violaram, o presidente russo acrescentou: “e os [estados] satélites norte-americanos grunhem com eles”. É muito difícil traduzir o verbo russo “подхрюкивать”, “grunhir com eles” é o mais perto que consigo chegar. A imagem mental é de um coral de porquinhos, acompanhando um grande suíno. A implicação é óbvia: para Putin, os norte-americanos são suínos, e os estados satélites da OTAN também são suínos. 



Assim sendo, que ninguém espere que Putin distribua pérolas àqueles porcos: Putin estará ocupado com ajudar os russos a viver vida melhor. Não terá tempo para dar atenção aos porcos.

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