quarta-feira, 3 de julho de 2019

Novos hierarcas não eleitos da UE darão continuidade à desordem atual

por John Laughland [*]


Apesar de tudo o que aconteceu na UE nos últimos cinco anos, os seus estados membros resolveram selecionar quatro políticos que encarnam a continuidade total com todas as políticas que levaram a UE à desordem atual. 
Os novos senhores da UE.
Nenhuma das recentes calamidades persuadiu o bloco a alterar, ainda que ligeiramente, a sua rota. Nem a ascensão de partidos anti-sistema na Itália, Alemanha, França, Finlândia e alhures. Nem a ascensão de forças [ditas] patrióticas na Polônia e na Hungria. E nem o Brexit, o qual em termos econômicos é o equivalente à perda não de um estado membro mas sim de 20 – e que destruirá as atuais disposições orçamentais da UE. 
Os quatro homens e mulheres cujas nomeações foram marteladas na terça-feira estão todos determinados a criar uns "Estados Unidos da Europa" (para citar a futura nova presidente da Comissão Europeia, Ursula von de Leyen) e portanto a prosseguir exatamente com a mesma integração europeia que está a provocar tanta tensão interna em estados membros da UE e suas instituições. Além disso, três dos quatro vêm dos estados nucleares da UE, os membros fundadores originais em 1951, sem nenhum da "nova Europa" no Leste ou no Centro da mesma. É como se, neste tempo de crise profunda, a UE quisesse retornar às suas fontes de cerca de 70 anos atrás, ao invés de reinventar-se novamente para enfrentar os novos desafios do século XXI. 

Ursula von de Leyen.
O anúncio mais gritante é naturalmente o do lugar de topo, o da ministra da Defesa alemã Ursula von der Leyen como presidente da Comissão. Porque a Comissão tem um monopólio sobre todo o processo legislativo e executivo nas instituições da UE, este corpo é o motor que conduz toda a máquina. O parlamento, em comparação, é destituído de poderes. O facto de a Alemanha ter agora adquirido controle da mais importante instituição da UE é notável, nem que seja porque é a primeira vez que um alemão teve este posto desde o primeiro presidente da Comissão, Walter Hallstein, que ocupou o cargo entre 1958 e 1967. Nas décadas que decorreram, e especialmente desde 1990, a Alemanha emergiu como a potência hegemônica na UE e nada é decidido em Bruxelas sem o acordo de Berlim. 

A Alemanha também domina o Parlamento Europeu: quatro dos sete grupos no parlamento, e portanto mais de dois terços dos membros, são liderados por alemães. Quando Angela Merkel se prepara para deixar o gabinete em Berlim ela, portanto, pode estar certa de que o seu legado subsistirá, na verdade aumentará, em Bruxelas e em Estrasburgo, onde as instituições da UE serão controladas pelos seus aliados políticos mais próximos e seus herdeiros. 

A contribuição específica de Ursula von der Leyen, além da sua nacionalidade e do seu status como aliada estreita de Angela Merkel, é que uma apoiante comprometida não só do conceito de uma Europa federal como também de um exército da UE. Como ministra da Defesa, ela anteriormente anunciou planos para investir €130 mil milhões nos militares da Alemanha ao longo de 15 anos, bem como um aumento de 10 por cento em 2019 para subir este valor para €50 mil milhões. Se esta remilitarização for vestida com roupas "europeias", então as tensões da Guerra Fria no continente europeu só poderão crescer, algo que a sra. von der Leyen deseja claramente: ela é notória por ser um dos piores falcões anti-russos na Alemanha e na Europa. 

Dificilmente as coisas são melhores com a menos importante das quatro nomeações, aquela de Josep Borrell como chefe da política externa. Assim como von der Leyen disse que a Rússia já não é mais um parceiro, em Maio também Borrell descreveu a Rússia como "um velho inimigo". A Rússia convocou o embaixador espanhol em Moscovo ao Ministério dos Negócios Estrangeiros para protestar. Borrell partilha com von der Leyen uma crença dogmática mais auto-contraditória numa "defesa europeia compatível com a NATO". A NATO é na realidade dominada pelos Estados Unidos. E apesar de ele ter sido crítico da tentativa do governo estado-unidense de forças uma mudança de regime em Caracas, Borrell no entanto apoia o "reconhecimento" de Juan Guaidó como presidente da Venezuela: tal como sua posição sobre a defesa, este compromisso é também auto-contraditório porque se Guaidó fosse realmente o presidente legal da Venezuela, como proclama Borrell, então o jovem fantoche dos EUA teria todo o direito de remover Nicolas Maduro à força. 

Charles Michel, o novo presidente do Conselho Europeu, é o segundo belga a ter ocupado este posto essencialmente honorífico: Herman van Rompuy foi nomeado como o primeiro presidente em 2009 (o segundo foi Donald Tusk, Michel é o terceiro). Diz-se frequentemente da Bélgica que tem sete parlamentos mas nenhum estado: agora Michel terá 27 governo mas ainda nenhum estado. Seria difícil imaginar um político mais conformista do que Charles Michel: este criado liberal nunca pronunciou uma palavra original na sua vida. Além disso, tal como Ursula von der Leyen, ele tem a política da UE no sangue. Tal como Ernst Albrecht, pai de Ursula von der Leyen, o qual foi um responsável superior da Comissão Europeia antes de se tornar ministro presidente da Baixa Saxônia (Ursula nasceu em Bruxelas e frequentou a Escola Europeia), o pai de Charles Michel, Louis, foi um ministro dos Negócios Estrangeiros belga e comissário europeu. Duas das quatro nomeações de ontem são portanto dinásticas, enfatizando a casta – à semelhança da classe política europeia – à qual dever-se-ia talvez acrescentar Josep Borrell que é um antigo presidente do Parlamento Europeu e antigo presidente do Instituto da Universidade Europeia, em Florença. 

Em suma, nenhum dos quatro brilha como uma personalidade ao passo que vários deles têm sido envolvidos em escândalos financeiros – Borrell for deixar de declarar €300 mil por um trabalho de um ano em consultoria em 2012 e Lagarde por aprovar um pagamento do Estado a um amigo de Nicolas Sarkozy. Leyen tem sido muitas vezes acusada de incompetência como ministro, mais preocupada com o seu penteado perfeito do que em dirigir as forças armadas alemãs. Todos os quatro sobreviveram na política, na maior parte dos casos durante décadas, precisamente porque nunca se desviaram da linha do partido e ao invés chegaram onde estão fazendo como lhes dizem. 

Quanto ao homem eleito na quarta-feira como presidente do Parlamento Europeu, ele não tem poder de todo. O pouco poder que o Parlamento Europeu tem é o do interesse dos seus membros. A eleição de David-Maria Sassoli representa um novo prego no caixão da representação política porque ele representa uma força gasta na política italiana. Como membro do Partido Democrático, ele posiciona-se pela velha ordem a qual em 2018 foi varrida para longe em Roma quando a nova esquerda do 5 Estrelas e a nova direita da Liga construíram uma aliança para por de lado os velhos partidos. Acima de tudo, Sassoli foi vice-presidente no parlamento anterior e portanto a sua eleição agora é também uma expressão de continuidade. 

Em suma, confrontada com uma crise existencial e uma grave falta de credibilidade, a mensagem da UE aos seus eleitores e ao mundo é: Business as usual. 



[*] Doutorado em filosofia pela Universidade de Oxford, ensinou nas universidades de Paris e Roma, é historiador e especialista em assuntos internacionais.

O original encontra-se em www.rt.com/op-ed/463298-eu-parliament-council-commission/ 


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

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