terça-feira, 2 de julho de 2019

Rússia-Índia-China partilham quarto com vista

Pepe Escobar Пепе Эскобар

A mais importante reunião trilateral no G20 em Osaka foi confinada num ambiente de mau gosto que absolutamente não honra o minimalismo estético inigualável dos japoneses.

Os tres lideres em Osaka dia 28 de junho de 2019. Foto:Mikhail Klimentyev / Sputnik / AFP

O Japão sempre brilha quando se trate de planejamento e execução perfeitos. Por tudo isso, difícil aceitar que o cenário que todos viram tenha sido “acidente” infeliz. Mas, de bom, que o encontro não oficial de Rússia-Índia-China, à margem do G20, transcendeu o destino de um decorador de interiores que até pode já ter cometido seppuku.
Os líderes desses três países reuniram-se praticamente em sigilo. Os poucos representantes da imprensa que esperavam na sala apertada, foram imediatamente convidados a se retirar. Os presidentes Putin, Xi e Modi tinham às costas equipes de assessores que mal conseguiam caber nos assentos. Absolutamente nada vazou. Cínicos sempre dirão que a sala, mesmo tão feia, poderia ter sido grampeada. Afinal de contas, Xi pode convidar Putin e Modi a Pequim, sempre que quiser discutir assunto sério.

Correm boatos em Nova Delhi, de que Modi tomou a iniciativa de realizar aquele encontro em Osaka. Não é exatamente assim. Osaka é a culminação de um longo processo comandado por Xi e Putin para seduzir Modi para um mapa do caminho triangular de séria integração da Eurásia, consolidado em reunião anterior, mês passado, na cúpula da Organização de Cooperação de Xangai, em Bishkek.

Agora, Rússia-Índia-China (RIC) está completamente de volta aos negócios; a próxima reunião está agendada para o Fórum Econômico Oriental em Vladivostok em setembro.

Nas respectivas falas de abertura, Putin, Xi e Modi deixaram claro que o grupo RIC tem a ver com configurar, nas palavras de Putin, uma “indivisível arquitetura de segurança” para a Eurásia.

Modi – numa linha bem Macron – destacou o esforço multilateral para combater contra a mudança climática, e reclamou de a economia global estar sendo comandada por voz “unilateral”, enfatizando a necessidade de se reformar a Organização Mundial do Comércio.

Putin avançou um passo adiante, insistindo em que “nossos países são favoráveis a que se preserve o sistema de relações internacionais, cujo núcleo é a Carta da ONU e o Estado de Direito. Defendemos importantes princípios das relações entre Estados, como respeito à soberania e não interferência em assuntos internos.”

Putin claramente chamou a atenção para a interconexão geopolítica de ONU, BRICS, OCX e G20, além de “reforçar a autoridade da OMC” e do Fundo Monetário Internacional como “referência de um mundo multipolar moderno e justo, que não considera as sanções como ações legítimas.”

As diferenças entre Rússia-Índia-China e o governo Trump não poderiam ser mais completas.

Aqueles tais ‘tremendos ativos’ [ing. ‘tremendous assets’]
Os BRICS, no pé em que as coisas estão hoje, morreu. Houve uma reunião “oficial”, pró-forma, dos BRICS, antes da reunião dos RIC. Mas não é segredo para ninguém que ambos, Putin e Xi absolutamente não confiam em Jair Bolsonaro, considerado ativo neocolonial de Trump.

Antes de sentar-se com Trump, Bolsonaro elogiou a riqueza mineral do Brasil. Disse que o país pode agora exportar “bugigangas de nióbio” [ing. “niobium trinkets”].

Bem... é tema sem dúvida menos discutível que o sherpa** militar brasileiro preso na Espanha por transportar quantidades industriais de cocaína (39kg) no avião presidencial, o que definitivamente arruinou as festas nas madrugadas de Osaka.

Mais tarde, Trump elogiou devidamente seus “tremendos ativos” no Brasil, hoje já completamente privatizados em benefício de empresas norte-americanas.

Xi, na fala na reunião dos BRICS, denunciou o protecionismo e exigiu uma OMC mais forte. Os países BRICS, disse ele, devem “aumentar a própria resiliência e a própria capacidade para enfrentar riscos externos.”

Putin subiu um tom acima. Além de denunciar tendências “protecionistas” no comércio global, exigiu que se faça comércio bilateral em moedas nacionais, caso a caso, deixando de lado o EUA-dólar – ampliando um compromisso já assumido pela parceria estratégica Rússia-China.

Rússia-China, via o Ministro das Finanças Anton Siluanov e o presidente do Banco do Povo da China, Yi Gang, assinaram um acordo para se servirem de rublos e yuan no comércio bilateral, a começar nos negócios de energia e agricultura, e para aumentar em 50% as compensações nas respectivas moedas nacionais, nos próximos poucos anos.

Haverá esforço concertado para deixar de lado cada vez mais amplamente o Sistema SWIFT de compensações bancárias internacionais, usando o Sistema Russo para Transferência de Mensagens Financeiras [ing. Russian System for Transfer of Financial Messages (SPFS)] e o Sistema Chinês de Pagamentos Interbancários Transfronteiras [ing. Chinese Cross-Border Inter-Bank Payments System (CIPS)].

Mais cedo ou mais tarde, Rússia-China atrairão a Índia. Moscou mantém excelentes relações bilaterais com ambas as capitais Pequim e Nova Delhi, e está desempenhando com firmeza o papel de mensageiro privilegiado.

A miniguerra comercial contra Nova Delhi lançada pelo governo Trump – incluindo a perda do status comercial especial de que a Índia gozava, castigo por ter comprado sistemas S-400 de mísseis russos – está acelerando o processo. E a Índia, por falar dela, pagará em euros, os S-400s comprados.

Nada absolutamente vazou de Rússia-Índia-China sobre o Irã. Mas diplomatas dizer que o Irã foi tema chave da discussão. A Rússia já está –sem dar na vista – ajudando o Irã em numerosos níveis. A Índia tem de tomar uma decisão de consequências existenciais: continuar a comprar petróleo iraniano, ou dar adeus à ajuda estratégica do Irã, pelo porto Chabahar, para facilitar a mini-Rota da Seda da Índia para o Afeganistão e a Ásia Central.

China vê o Irã como nodo chave das Novas Rotas da Seda, ou “Iniciativa Cinturão e Estrada”. Rússia vê o Irã como essencial para preservar a estabilidade estratégica no sudoeste da Ásia – tema chave do encontro bilateral Putin-Trump, que também discutiu Síria e Ucrânia.


RIC ou Cinturão e Estrada?

Sejam quais forem as táticas de ‘operações psicológicas’ que Trump empregue, Rússia-Índia-China também estão diretamente implicadas nas massivas implicações de curto e de longo prazo da conversa bilateral Trump-Xi em Osaka. O Grande Quadro não vai mudar; o governo Trump está apostando em tirar de dentro da China as cadeias de suprimento globais; enquanto Pequim avança em alta velocidade com sua Iniciativa Cinturão e Estrada.

A Europa de modo geral absolutamente não confia em Trump – e Bruxelas sabe que a União Europeia é alvo de outra iminente guerra comercial. Ao mesmo tempo, com mais de 60 nações envolvidas em incontáveis projetos de Cinturão e Estrada, e com a União Econômica Eurasiana também interconectada com Cinturão e Estrada, Pequim sabe que é só questão de tempo para que a União Europeia engaje-se na trilha BRI.

Não se veem sinais de que a Índia possa, de repente, unir-se a projetos Cinturão e Estrada. A atração geopolítica do “Indo-Pacífico” – essencialmente apenas mais uma estratégia para conter a China – paira sobre tudo. É a velha tática imperial de “Dividir para Governar” – e todos os grandes players sabem disso.

Mesmo assim, a Índia, agora publicamente, começa a repetir que o Indo-Pacífico não é “contra um ou outro país”. A Índia aprofundando-se no grupo RIC não implica aproximar-se mais de Cinturão e Estrada.

É hora de Modi crescer como a situação exige que cresça. Afinal, Modi decidirá o lado para onde se deslocará o pêndulo geopolítico.


NTs
* A room with a wiew” [“Um quarto com vista”] é o título de um romance de E.M.Forster, de 1908, traduzido ao português como “Uma janela para o amor” depois convertido em filme.







Muito obrigado a Tlaxcala
Data de publicação do artigo original: 29/06/2019

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