quarta-feira, 10 de julho de 2019

UE submete-se ao gás natural mais caro imposto pelos EUA

por Federico Pieraccini


Uma das batalhas energéticas mais importantes para o futuro está a ser travada no campo do gás natural liquefeito (GNL). Considerado como uma das principais soluções para problemas do meio ambiente, o GNL poderá resolver os problemas energéticos de um país ao mesmo tempo que neutraliza preocupações ambientais provocadas por outras fontes de energia. Enquanto isso, um pouco à maneira do dólar norte-americano, o GNL está a transformar-se numa ferramenta que Washington pretende utilizar contra Moscovo à custa dos aliados europeus dos Estados Unidos.  
Navio metaneiro para o transporte de GNL.
De 1990 até hoje, a capacidade de utilização de gás natural liquefeito cresceu de 220 milhões de toneladas para 850 milhões de toneladas por ano. 




O volume de comércio aumentou de 20 a 30 milhões de toneladas por ano para cerca de 300 milhões. O número de países importadores de GNL aumentou de pouco mais de uma dúzia para 40 ao longo de 15 anos, enquanto o número de produtores permaneceu praticamente inalterado, com algumas excepções: os Estados Unidos entraram no mercado de GNL, em 2016, através do boom do gás de xisto, obtido de maneira ambientalmente agressiva. 

Dois processos de transporte 

Existem dois métodos de transporte do gás. O primeiro é através de gasodutos, que reduzem os custos e facilitam as ligações entre países; trata-se do sistema mais importante para a Europa. Os quatro principais gasodutos com destino à Europa têm origem em quatro diferentes regiões geográficas: Médio Oriente, África, Norte da Europa e Rússia. 

O outro método de transporte de gás é por via marítima na forma liquefeita, processo que a curto prazo é mais caro, complexo e difícil de implementar em larga escala. O gás transportado por via marítima é processado com custos no mínimo 20% mais elevados do que o gás transportado por gasodutos. 

Menos de metade do gás necessário para a Europa é produzido internamente; o restante é importado da Rússia (39%), da Noruega (30%) e da Argélia (13%). 

A construção de infraestruturas para receber navios transportando GNL está em andamento na Europa; alguns países europeus já têm uma capacidade, embora limitada, para armazenar GNL e distribuí-lo através da rede nacional e europeia; ou condições para funcionar como interfaces a partir dos quais o transporte possa ser efetuado em navios menores e para portos menos adaptados. 

Segundo King and Spalding: 

"Todos os terminais de GNL na Europa são instalações de importação, com excepção da Noruega (que não pertence à União Europeia) e da Rússia, países exportadores de GNL. Existem atualmente 28 terminais de importação de GNL em larga escala na Europa (incluindo a Turquia, não pertencente à UE). Existem ainda oito instalações de GNL de pequena escala em territórios europeus (Finlândia, Suécia, Alemanha, Noruega e Gibraltar). Dos 28 terminais de importação de GNL de larga escala, 24 estão em países da União Europeia (sujeitos, portanto, à regulamentação da UE) e quatro estão na Turquia; 23 são terminais terrestres de importação e quatro são unidades flutuantes de armazenamento e regaseificação. A única unidade de importação em Malta integra uma unidade de armazenamento flutuante e instalações de regaseificação em terra".   

Europa, mercado essencial 

Os países atualmente mais envolvidos na atividade de exportação de GNL são o Qatar (2,9%), a Austrália (21,7%), a Malásia (7,7%), os Estados Unidos (6,7%), a Nigéria (6,5%) e a Rússia (6%). 

A Europa é um dos principais mercados de gás, devido à sua forte procura de energias limpas para as necessidades domésticas e industriais. Por essa razão, a Alemanha está há anos envolvida no projecto Nord Stream 2, que visa duplicar a capacidade de transporte de gás da Rússia para território germânico. Atualmente, o fluxo do Nord Stream é de 55 mil milhões de metros cúbicos de gás. Com o novo Nord Stream 2, a capacidade duplicará para 110 mil milhões de metros cúbicos por ano. 

Gasodutos principais na Europa.
O projecto South Stream, liderado pelas empresas ENI (Itália), Gazprom (Rússia), EDF (França) e Wintershall (Alemanha) deveria ter aumentado a capacidade da Federação Russa para abastecer a Europa em 63 mil milhões de metros cúbicos por ano, com impactos positivos – através de abastecimento barato de gás natural – nas economias da Bulgária, Grécia, Itália, Sérvia, Hungria, Áustria e Eslovênia. Porém, devido às restrições impostas pela União Europeia a empresas russas como a Gazprom e à contínua pressão de Washington para bloquear o projecto de modo a favorecer as importações norte-americanas, a construção do gasoduto foi praticamente interrompida. Além disso, Washington está a pressionar a Alemanha para travar o Nord Stream 2 e impedir a construção dessa importante ligação energética. 

Novas tensões emergiram quando a ENI, empresa italiana líder do sector de GNL, descobriu recentemente um dos maiores campos de gás do mundo em águas territoriais do Egipto, com uma capacidade calculada de 850 mil milhões de metros cúbicos. As necessidades da União Europeia em 2017 foram de 407 mil milhões de metros cúbicos. 

A descoberta da ENI criou uma importante base de planeamento para o futuro do abastecimento de gás na Europa. 

"Gás da liberdade" a qualquer preço 

Os problemas agravaram-se desde que a administração Trump passou a fazer imposições para que os europeus comprem o gás natural aos Estados Unidos para reduzir o défice comercial norte-americano e beneficiar as empresas norte-americanas em detrimento da concorrência argelina, norueguesa e russa. O GNL importado dos Estados Unidos sai cerca de 20% mais caro do que o produto abastecido através de gasodutos. Isto sem incluir o investimento necessário para construir instalações de regaseificação nos países que irão receber esse gás. A Europa não tem nas suas costas atlânticas as instalações essenciais para receber GNL dos Estados Unidos, distribuí-lo através das suas redes de energia e, simultaneamente, diminuir a procura nas fontes tradicionais. 

Apesar deste quadro pouco favorável, as exportações de GNL norte-americano subiram de 10 para 11% entre 2010 e 2011 e agora nos primeiros meses de 2019 atingiram 35%. 

A Europa está, decididamente, numa situação pouco confortável que não pode ser facilmente resolvida. A histeria anti-russa adoptada pelo establishment globalista euro-atlântico dá alento aos esforços de Trump para espremer economicamente os europeus com a maior pressão possível. Quem sai ferido no processo são os cidadãos europeus, que terão de pagar pelo gás norte-americano cerca de um quinto mais do que pelo gás de fontes russas, norueguesas ou argelinas. 

Projetos para construir instalações regaseificadoras offshore já foram iniciados. Existem atualmente 22 projectos de terminais de GNL em larga escala no espaço da União Europeia. Além disso, há planos de expansão de terminais existentes, designadamente na Bélgica, França, Grécia, Itália, Holanda, Polônia, Espanha e Reino Unido. 

O processo de transporte de gás natural liquefeito norte-americano em navios não tem capacidade para competir na Ásia contra o Qatar e a Austrália, que detêm a maior parte do mercado – sendo o restante abastecido através dos gasodutos russos. O único grande mercado remanescente está na Europa e, por isso, não é surpresa que Trump tenha transformado o GNL numa arma, contando para isso com a força do dólar. 

E os países da União Europeia parece que estão mesmo a arrastar-se para a perspectiva de trocar o gás mais barato pelo GNL norte-americano – baptizado em Washington como "o gás da liberdade" – mesmo que apenas existam desvantagens econômicas com essa opção. Como tem sido evidente nos últimos tempos, sempre que os Estados Unidos ordenam aos seus aliados "saltem!" estes apenas perguntam "até que altura?"- 

Nesta matéria, porém, nem todos os aliados procedem da mesma maneira. A Alemanha não está economicamente em condições de bloquear o Nord Stream 2. Apesar disso, embora o projecto tenha muitos patrocinadores influentes, como o ex-chanceler Gerhard Schroeder, o projecto está permanentemente em situação de ser interrompido – pelo menos nos delírios de Washington. 

A própria descoberta do campo de gás no Egipto pela ENI enfureceu os Estados Unidos, que querem permanentemente evitar a concorrência (mesmo minando-a de maneira ilegal, como no caso da Huawei) e forçar as exportações para a Europa mantendo o preço do GNL em dólares – reforçando a sua moeda como reserva mundial, da mesma maneira que o petrodólar. 

A histeria generalizada contra a Federação Russa, aliada ao corte de importações de petróleo iraniano, imposto por Washington, limitam a margem de manobra dos países europeus, além de saírem muito caras aos contribuintes. Os dirigentes da União Europeia parecem preparados para seguir qualquer rota que tenha sido estabelecida pelos Estados Unidos, uma rota bem distante das fontes de gás mais baratas do que o GNL fornecido do outro lado do Atlântico. E os investimentos ao que parece já comprometidos para acolher o GNL mais dispendioso – mesmo que seja "o gás da liberdade" – tornam improváveis as alterações à opção anti-econômica já escolhida. 


O original encontra-se em Strategic Culture Foundation e a tradução em
www.oladooculto.com/noticias.php?id=431 


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

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