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quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

"A revolução (real) nos assuntos militares" – Novo livro de Andrei Martyanov

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por The Saker

No ano passado resenhei o livro de Andrei Martyanov [*] " Losing Military Supremacy: the Myopia of American Strategic Planning " na Unz Review . Naquele livro, Martyanov explicou porque a era das vitórias fáceis dos EUA sobre países quase indefesos estava acabada e o que isso significava para os planeadores das forças dos EUA. Este ano, é com imenso prazer que faço a resenha do seu último livro " The (real) Revolution in Military Affairs " ("A revolução (real) nos assuntos militares"). Deixem-me dizer de imediato que não é preciso ler o primeiro livro para aproveitar muito o segundo, mas ainda penso que a melhor combinação para obter um quadro completo seria ler ambos os livros na ordem em que foram publicados. Mas hoje vou rever apenas o segundo livro.

Primeiro, desmascarar as muitas ficções da ciência política nos EUA

Martyanov começa seu livro desmascarando a chamada "armadilha de Tucídides", a qual a revista Foreign Policy resumiu assim: " Quando uma grande potência ameaça deslocar outra, o resultado é quase sempre a guerra – mas não tem de ser assim" (com uma ênfase clara na primeira parte do subtítulo). Martyanov classifica corretamente este cliché (tipicamente de "geeks da ciência política") como muito perigoso e enganoso. Ele a seguir continua a desmascarar uma lista de clichés da ciência política dos EUA, incluindo o mais recente, o da chamada "guerra híbrida". Ele fala de "confusão desnecessária e pseudo-escolástica" e acrescenta que a atual "redoma dos think tank ocidentais" está "totalmente despreparada" para as realidades da guerra moderna. Como alguém que trabalhou (durante meus anos de faculdade) em vários think tanks dos EUA em Washington DC, só posso concordar. Também sei que a maioria dos think tanks escreverá qualquer coisa, não importa quão falsa, apenas para garantir mais financiamento (até tive um colega que trabalhou em think tanks "respeitáveis" que ria das asneiras que escreviam só para obterem mais financiamento).

Além disso, na maioria dos países da Europa Ocidental, o que os think tanks americanos escrevem é considerado como um evangelho, inclusive por pessoas em posições importantes nos serviços militares e de inteligência. Assim, quando o mais recente boato falso (canard) dos EUA sai cá para fora, digamos "guerra híbrida", todo a gente na Europa sente-se obrigada a utilizar tal expressão para parecer semi-educado em assuntos militares. O que eu também já vi por mim próprio, muitas vezes.

Tese-chave: os líderes ocidentais, especialmente os decisores dos EUA, estão fora de contacto com a realidade

Segundo Martyanov, os líderes políticos ocidentais estão a viver numa pseudo-realidade completamente ilusória que não tem qualquer conexão com o mundo real. Eu recordaria aos que acusarão Martyanov de ser demasiado severo na sua crítica que Karl Rove, o super-guru político dos EUA, admitiu candidamente que "agora somos um império e, quando agimos, criamos nossa própria realidade. E enquanto você estuda essa realidade – criteriosamente, como quiser –, atuaremos outra vez, criando outras novas realidades, as quais você também pode estudar, e é assim que as coisas decorrerão. Nós somos atores da história ... e vocês, todos vocês, serão relegados apenas a estudar o que fazemos".

Seria possível dizer que todo o esforço de Martyanov visa um objectivo específico: despertar aqueles americanos que ainda se importam e que ainda têm um resto de inteligência crítica, apresentando-lhes a realidade da guerra moderna no século XXI, inclusive contra adversários quase iguais, iguais e até superiores (em 2019 este seria apenas a Rússia, mas isto também está a mudar muito, muito rapidamente, e a China tem feito um imenso progresso nas suas capacidades militares).

Ele começa por mostrar porque os modelos de ciência política, os quais pretendem avaliar o poder agregado global de uma sociedade, os EUA, são profundamente falhos e dão aos políticos e ao público ocidentais um sentimento completamente errôneo de confiança, poder e segurança. A seguir passa a contrastar estes modelos com algo que eu não ouvia desde meus anos de faculdade: as chamadas "Leis de Osipov-Lanchester" (bem, como eu estava numa faculdade nos EUA, chamávamos isso apenas de "equações de Lanchester" porque aqui quase nunca se mencionam autores ou cientistas não ocidentais). Não vou resumir agora a natureza destas equações, pois a Wikipedia fez um trabalho decente aqui , mas mencionarei que nas nossas aulas de planeamento de forças militares usávamos estas (e outras) equações para criar todo tipo de modelos numéricos para desgastes, movimentos frontais e mesmo intercâmbios nucleares entre superpotências (as quais, é claro, não usavam diretamente as equações de Osipov-Lanchester do início do século XX, mas utilizavam equações modernas que foram desenvolvidas pela comunidade de planeamento de forças dos EUA, as quais eram pelo menos inspiradas pelo tipo de metodologia utilizada por Osipov e Lanchester).

Permitam-me tranquilizar de imediato os leitores avessos à matemática: os escritos de Martyanov não arrastam o leitor através de equações complicadas, ele apenas usa uma versão simplificada destas equações de Osipov-Lanchester para mostrar que a guerra moderna é uma ciência que exige um mínimo de perícia técnica/tecnológica para entender e que realmente nada tem a ver com palavras da moda sem sentido da ciência política e conceitos exagerados como "A2/AD" ou "guerra híbrida", "guerra centrada em rede" ou mesmo "Revolução nos Assuntos Militares". A verdade é que nenhum destes conceitos é novo. Eles existem há décadas e são todos os chavões cuja função principal é fazer uma pessoa despistada parecer "bem versada na terminologia complexa da ciência política moderna" ou algum outro objectivo igualmente insípido, como convencer políticos despistados a gastarem mais dinheiro em "defesa", possibilitando assim aos proponentes desta espécie de tolice da ciência política encherem seus bolsos com dinheiro ganho com facilidade.

A seguir, um curso rápido de guerra moderna para principiantes

O resto do livro é o que eu chamaria de um "curso rápido de guerra moderna para principiantes": Martyanov faz um trabalho absolutamente soberbo ao explicar algumas (não todas, é claro!) características da guerra moderna a um leitor que se supõe ser apenas um amador curioso cujo intelecto pode ser persuadido por argumentos lógicos e baseados em factos (em oposição à arrogância ilusória e imperial e à sensação de bem-estar de tremular a bandeira e a auto-adoração). Como matéria de facto, o livro de Martyanov poderia ser uma "introdução à análise militar" ideal ou um curso de "planeamento de forças militares para principiantes".

Martyanov mostra-se profundamente frustrado com a ignorância deliberada exibida por muitos acadêmicos, políticos e outras pessoas dos EUA e atribui a culpa ao sistema educacional dos EUA. Este, segundo Martyanov, ensina teorias sem sentido que são não só inúteis, mas na verdade auto-enganosas e absolutamente perigosas. Fazendo justiça às faculdades e academias dos EUA, penso que Martyanov é um tanto injusto: apesar de ser verdade que a maioria das escolas de "ciência política" e outras de "estudos de conflitos e paz" ensinarem principalmente tolices, existem outras faculdades e academias nos EUA – civis e militares – que, pelo menos nas décadas de 80 e 90 – ensinavam análises e planeamento de forças militares reais. Aqueles cursos eram tipicamente ministrados por professores adjuntos retirado de pessoal militar que davam aulas à noite enquanto ainda trabalhavam nas suas posições regulares no Departamento de Defesa. Além disso, muitos estudantes tinham uma patente militar (geralmente Primeiros Tenentes e Capitães). Não sei até que ponto são boas as escolas agora, mas nas décadas de 1980 a 1990 algumas destas escolas possuíam currículos excelentes, "pesados" em análise técnica e modelação por computador. Também posso dizer que a maior parte dos oficiais americanos com os quais estudei eram especialistas muito competentes e homens honrados, todos agudamente conscientes de que ser oficial das forças armadas de uma superpotência impunha-lhes um duplo fardo: o de proteger o seu país pela dissuasão, mas também evitar um conflito a quase qualquer custo, porque esta é a única maneira de realmente proteger o seu país!

A propósito, naquele tempo, um oficial sênior do Office of Net Assessment do Departamento de Defesa disse-nos abertamente: " nenhum presidente dos EUA alguma vez sacrificará Boston ou Chicago por causa de Berlim ou Paris; mas nunca admitiremos isso publicamente". Na minha experiência, os oficiais da Guerra Fria dos EUA eram muito competentes, cautelosos e conscientes da imensa responsabilidade colocada sobre seus ombros. Além disso, direi o seguinte: durante a Guerra Fria, tanto a URSS quanto os EUA atuavam com responsabilidade, mesmo durante grandes crises. Finalmente, apesar da ideia (natimorta) de Reagan da "Guerra nas Estrelas", também conhecida como "SDI" – nunca conheci um único oficial dos EUA que acreditasse, mesmo por um segundo, que os EUA pudessem travar um segundo ataque de retaliação soviético (muito menos o primeiro!).

Durante a Guerra Fria – a dissuasão funcionou e os dois lados jogavam pelo mesmo livro de regras. Este não é mais o caso e isto é muito assustador.

Da mesma forma, a postura oficial da US Navy era que precisava de 600 navios para "avançar" e "levar a guerra aos soviéticos" (atingindo, por exemplo, a Península de Kola). No entanto, todos os oficiais da USN que conheci e que serviram em porta-aviões americanos nos disseram que tudo isso era propaganda e que, devido à ameaça "extrema" de mísseis dos ursos soviéticos, contra-ataques e submarinos com mísseis nucleares (SSGNs) da classe Oscar, a marinha recuaria imediatamente para o sul do chamado GIUK Gap . Lembre-se de que isso foi muito antes do advento dos mísseis anti-navio hipersônicos de longo alcance!

Naquela época (final dos anos 80), o que eu via normalmente nas escolas orientadas para militares dos EUA eram especialistas militares muito competentes que na verdade se prestavam à retórica (lip-service) obrigatória da propaganda oficial, mas que nunca, nem por um segundo, levavam a sério toda aquela palermice. Nenhum. Quanto aos sujeitos que esses especialistas militares tipicamente chamavam de "geeks da ciência política" – ninguém os levava a sério e havia uma grande aversão entre departamentos de ciência política e as escolas de "estudos de segurança" ou de "estudos de segurança nacional" (muitos proto-neocons entre estes sabichões da ciência política, a propósito).

Será que isto ainda é verdade hoje? Não sei, mas meu medo é que os Neocons tenham estripado o Departamento de Defesa dos seus especialistas mais competentes, deixando apenas "generais políticos" (palhaços realmente políticos à la General "Betrayus" a quem o almirante Fallon chamou abertamente de "Beija cu covarde"). E, francamente, o rumor (bastante crível) de que o general Jim Mattis, também conhecido como "Maddog", era a voz (solitária) da razão na Primavera de 2017 paredes meias com o Gabinete Neocon de Trump, é absolutamente assustador. Especialmente porque acabaram por mostrar a porta a Mattis…

Mas a realidade pode ser ainda pior.

O que acontece quando o "terceiro A" desaparece

Durante um desses cursos, não me lembro qual, recordo de um oficial nos dizer que o processo de inteligência pode ser resumido pelo que ele chamou de "três As": aquisição, análise e aceitação. O primeiro 'a' é simplesmente obter os dados brutos por qualquer meio, técnico ou "humano". O 'a' seguinte é a análise dos dados obtidos por gente especializada que supostamente seriam peritos em analisar e avaliar tais dados e sua fonte e, em seguida, redigir um resumo legível a ser apresentado aos tomadores de decisão. O terceiro 'a' é simplesmente a aceitação, ou a falta dela, pelos tomadores de decisão dos relatórios apresentados. A julgar pelo tipo de linguagem agora usado por quase todos os políticos dos EUA (excepto Ron Paul e Tulsi Gabbard e talvez muito poucos outros), o processo de inteligência nos EUA parece estar completamente rompido, se no nível do primeiro, segundo ou terceiro 'a' faz muito pouca diferença. Por quê?

Porque falar a verdade acerca da guerra moderna ou acerca do estado sombrio das forças armadas dos EUA é um "assassino de carreira" instantâneo no moderno contexto político dos EUA. Quem rompe esse tabu está instantaneamente a destruir a sua perspectiva de ser ouvido, quanto mais de ser prestada atenção. Na cultura política moderna, a resposta automática a qualquer "crime de pensamento" é uma combinação típica de acusação de "antiamericanismo" ou "falta de patriotismo" ou alguma outra acusação ad hominem que habilmente evita qualquer discussão sobre a realidade real do tópico discutido. Assim, deixem-me abordar essa atitude frontalmente e declarar o seguinte:

Acredito fortemente que qualquer americano que ame seu país deve ler cuidadosamente AMBOS os livros de Martyanov !

Além disso, longe de serem antiamericanos, os livros de Martyanov representam um esforço hercúleo para tentar despertar o público americano da sua coma sobre a realidade da guerra moderna e mostrar que uma continuação da ilusória arrogância imperial que é tão generalizada no discurso da política americana poderia levar a um desastre absoluto: uma guerra em plena escala entre a Rússia e os EUA, a China e os EUA ou, pior ainda, a Rússia e a China contra os EUA. E é uma guerra que, pela primeira vez na história, devastará o continente americano tanto com armas convencionais como nucleares.

Por fim, se você nunca conseguiu entender as novas armas russas anunciadas por Putin no seu discurso agora famoso, também pode pensar no livro de Martyanov como um guia de estudo para civis curiosos, no qual ele explicará não apenas o que essas armas podem fazer mas o que sua introdução nas forças armadas russas realmente significa para os EUA.

Com este livro, você obterá seu terceiro 'a'

O maior benefício dos dois livros de Martyanov é que dão ao leitor todos os três As: Será apresentado aos dados "concretos" do mundo real acerca dos novos sistemas e tácticas de armas do século XXI. A seguir, Martyanov apresenta a uma análise simples, mas extremamente convincente, do significado de todos esses dados. Finalmente, Martyanov explica por que tudo isso é crucial para todos os cidadãos dos EUA que desejam que seu país seja pacífico e próspero. Assim, só posso repetir que considero ambos os livros de Martyanov uma leitura obrigatória para qualquer membro da Comunidade Saker ou para qualquer pessoa que queira entender a verdadeira natureza da atual Revolução nos Assuntos Militares que se desenrola diante dos nossos olhos.

O livro é muito bem escrito e bastante curto (193 páginas). Meu único lamento é o índice muito fraco no final (um livro tão seminal como este deveria realmente ter um índice completo).

Trata-se de uma ótima leitura e insto todos a que obtenham um exemplar deste livro.


Martyanov no resistir.info:

  • A supremacia militar perdida dos EUA , Jorge Figueiredo
  • A perda da supremacia militar e a miopia do planeamento estratégico dos EUA (I) , Daniel Vaz de Carvalho
  • A perda da supremacia militar e a miopia do planeamento estratégico dos EUA (II) , Daniel Vaz de Carvalho
  • Como Putin virou o jogo: a paz através força , Andrei Martyanov
  • O gato e o cozinheiro , Andrei Martyanov

  • As implicações dos novos sistemas de armas da Rússia , Andrei Martyanov

    [*] Andrei Martyanov: Perito em questões militares e navais. Nasceu em Baku, URSS, em 1963. Formou-se na Academia Naval Bandeira Vermelha de Kirov e serviu como oficial em navios e em posições de staff da Guarda Costeira Soviética até 1990. Participou dos eventos no Cáucaso que levaram ao colapso da União Soviética. Em meados dos anos 90, mudou-se para os Estados Unidos, onde atualmente trabalha como Diretor de Laboratório num grupo aeroespacial comercial. Colabora frequentemente no US Naval Institute Blog dos EUA. Também escreve em Reminiscence of the Future…

    O original encontra-se em thesaker.is/...


    Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .
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